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Inteligência - ABIN tem dossie sobre Máfia no Brasil


28/03/04

Dossiê da Abin, fruto de investigações conjuntas com autoridades italianas, confirma presença maciça de representantes da organização criminosa em vários estados do País.Quebra de sigilo telefônico e interceptação de correspondências estão entre os expedientes usados durante o trabalho de investigação. Grupo especial foi montado para estudar o caso.

Fortaleza - Mafiosos estão fugindo do rigor das leis da Itália e transferindo seus "negócios" para o Brasil. É o que revela um dossiê confidencial de 33 páginas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Os documentos, dos quais o ESTADO DE MINAS obteve cópia, mostram como a Máfia fez do Brasil uma importante base do crime organizado internacional.

A rota funciona da seguinte forma: perseguidos na Itália, os mafiosos se mudam para o Brasil, abrem empresas de fachada e começam a trazer dinheiro sujo para o País. O dinheiro entra em fundo falso de malas e pastas tipo 007 e por meio de operações bancárias legais. Os mafiosos então aplicam os recursos em atividades criminosas no Brasil (tráfico de drogas, contrabando de armas, contrabando de jóias e prostituição de luxo, entre outras).

Depois de multiplicado, o dinheiro sujo é lavado em negócios de fachada, principalmente nos setores de construção civil, hotelaria, alimentação, serviços, comércio, espetáculos e na compra e venda de imóveis (urbanos e rurais). No final do processo, com o dinheiro já "descontaminado", os mafiosos remetem seus recursos de volta para o exterior, sobretudo para bancos da Itália.

A investigação da Abin começou no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998) e foi concluída no final da segunda gestão (1999-2002). Contou com a colaboração da Polícia Federal, da Receita Federal e de organismos antimáfia da Itália. Na apuração, foram descobertos criminosos italianos agindo em várias regiões do País. Dois dos destinos procurados com freqüência pelos mafiosos são Rio de Janeiro e São Paulo. Mas os Estados preferidos são os do Nordeste, com destaque para o Ceará.

A opção pelo Nordeste tem fundamento: é uma região turística com forte presença de estrangeiros, trânsito de barcos transoceânicos, oportunidade de negócios em setores de difícil fiscalização - como o turismo - e pouca tradição no combate ao crime organizado internacional. Ou seja, justamente o que os mafiosos precisam para praticar seus crimes impunemente.

Os mafiosos operam no Brasil, mas não deixam de manter laços com seus antigos parceiros na Itália. Também estão conectados com grupos do Reino Unido, da Áustria, da Irlanda, da França, de Portugal, da Rússia e da Arábia Saudita. Entre seus parceiros de crime, está a temida máfia russa.

Fachada limpa

A reportagem do ESTADO DE MINAS esteve em Fortaleza e refez o caminho percorrido pelos agentes da Abin na capital cearense. A maioria dos italianos apontados no dossiê continua em operação, sendo que muitos deles têm ficha limpa e administram grandes negócios no Estado.

Um caso exemplar é o de um empresário italiano radicado em Fortaleza que já foi investigado pela Abin, pela Polícia Federal, pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e por agentes antimáfia italianos. Há fortes indícios de que ele seja ligado à Cosa Nostra - a máfia da Sicília (Sul da Itália) - , mas até hoje os investigadores não conseguiram provar nada contra ele. Até seu imposto de renda está em dia.

A Abin chegou a infiltrar um agente no círculo desse empresário. Descobriu-se então que ele já recebeu remessas vindas do exterior no valor de US$ 183 mil, comprou fazendas no interior do Estado avaliadas em US$ 4,75 milhões e adquiriu terrenos em Fortaleza e Jericoacoara que somados chegam a 6 mil hectares (o equivalente a 6 mil campos de futebol). Segundo o dossiê, esse e outros italianos suspeitos lavam dinheiro construindo edifícios de luxo na praia de Meirelles, uma das regiões turísticas mais valorizadas da capital cearense.

A Abin descobriu ainda os laços dos mafiosos que operam no Brasil com organizações criminosas de outros países. Agentes secretos chegaram a seguir, em Fortaleza, uma integrante da máfia russa, de nome Elena.

Noutra ocasião, a Abin descobriu que o falso empresário italiano fizera um comentário suspeito quando negociava a compra de uma fazenda de 17 mil hectares na Chapada do Araripe. Segundo o dossiê, ao visitar a área, "encravada em local inóspito e de difícil acesso por terra", o italiano teria dito o seguinte: "essa região é excelente para abrigar Totò Riina". Trata-se do chamado capo dei capi (o chefe dos chefões) da Cosa Nostra, que cumpre pena por assassinato na Itália.

Narcotráfico

Nem sempre, porém, os criminosos italianos conseguem se aproveitar das brechas na legislação para viver na impunidade. Vários italianos já foram presos no Brasil em grandes operações policiais e aguardam, na cadeia, a conclusão de seus processos de extradição. Numa dessas operações , sete italianos disfarçados de turistas - Ricardo Rigacci, Mauricio Brancaccio, Romeo Sabá, Marcelo Giurelli, Giorgio Villimburgo, Alfredo Gianvicenzo e Cleto di Maria. - foram presos em flagrante com 218 quilos de cocaína.

A droga estava escondida no iate Roma, que se encontrava atracado em Fortaleza. Todos foram julgados e condenados por tráfico de drogas. Alguns deles, após cumprirem suas penas no Brasil, serão extraditados para a Itália, a fim de responderem por crimes cometidos naquele país.

Agente infiltrado na gangue

A investigação da máfia italiana no Brasil feita pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) envolveu missões clandestinas, quebra de sigilo de contas telefônicas e interceptação de correspondência. A operação mais complexa foi realizada no Ceará, onde a agência chegou a infiltrar um agente secreto entre os criminosos.

Durante meses, um dos suspeitos de pertencer à Máfia foi acompanhado por um "agente-fonte" da Abin, conforme registra o dossiê confidencial obtido pelo ESTADO DE MINAS. Em Fortaleza, o "agente-fonte" aproximou-se dos suspeitos, colheu informações valiosas e repassou-as à Abin. Entre os dados recolhidos pelo agente, estavam alguns métodos utilizados para trazer dinheiro sujo para o Brasil ("fundo falso de uma pasta 007") e operações de câmbio para lavagem de dinheiro.

Um grupo especial da agência regional da Abin no Ceará - denominado TK6 - ficou responsável por processar as informações colhidas pelo agente infiltrado. A TK6 confrontou os relatórios do "agente-fonte" com dados colhidos na Receita Federal, Polícia Federal e em cartórios.

Apesar de a Abin estar proibida de quebrar sigilo de contas telefônicas, a TK6 do Ceará fez relatórios com telefonemas dados e recebidos por alguns suspeitos. Um deles falava ao telefone, com freqüência, com 20 pessoas. Todas elas tiveram seus nomes, endereços e números de telefone anotados no dossiê.

Floresta

Em outra ação clandestina, a Abin recorreu a um método conhecido como "operação floresta" - ou seja, censura postal. A agência interceptou uma carta que um empresário brasileiro enviara a um italiano suspeito de envolvimento no crime organizado internacional. Lido, o material foi novamente acondicionado no envelope e seguiu para seu destino - uma forma de monitorar as ligações suspeitas e acompanhar os passos dos investigados. Como mostra um trecho da correspondência anotado no relatório da TK6, o empresário brasileiro propunha ao suposto mafioso que ambos formassem uma sociedade num projeto de irrigação milionário: "(.) Grande parte das inversões já foram feitas e necessitamos apenas de recursos para trocar o equipamento de irrigação e capital de giro. O volume de investimentos necessários para a complementação deste projeto é de US$ 3,5 milhões. Um projeto de 500 hectares é um projeto grande, com faturamento bruto anual de US$ 20 milhões com resultado líquido de US$ 6,5 milhões ao ano, na estabilização".

A Abin chegou a investigar até o comportamento sexual de suspeitos. Um italiano que reside no Ceará e é responsável por uma entidade assistencial no setor de educação foi descrito dessa forma: "(o suspeito) teria entre alunos e ex-alunos (.) fama de praticar agiotagem, homossexualismo, aliciamento de menores e porte ilegal de armas".

. Criminosos buscavam dinheiro público

Os criminosos italianos que operam no País têm conexões poderosas. Eles conseguem se aproximar de autoridades de alto nível, buscam acesso a financiamentos públicos e, quando necessário, corrompem fiscais municipais, estaduais e federais, conforme mostra o dossiê da Abin.

A Agência Brasileira de Inteligência conseguiu evitar que um empresário brasileiro se tornasse sócio de um criminoso italiano e que, juntos, fossem bater às portas do Governador do Ceará atrás de um financiamento público para um projeto de irrigação. Na carta, o empresário dizia ao seu parceiro italiano: "vale salientar que este é o tipo de projeto que interessa ao governo do Estado e que para isso receberemos todo o apoio. (.) Para se ter uma idéia, o governo estadual investiu (em outro projeto semelhante) cerca de US$ 5 milhões, em escola de treinamento de pessoal e outras obras".

A idéia era conseguir US$ 3,5 milhões com instituições financeiras estatais, como o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e Banco do Estado do Ceará (BEC). "Esse valor", diz o empresário na carta apreendida pela Abin, "seria financiado pelo governo através do BNB ou do BEC diretamente aos produtores e repassado para nós de imediato. Estou trabalhando com o presidente do banco nesta idéia que já está quase aprovada, pois para cada hectare reservaremos US$ 1 mil para a companhia".

De posse da informação, a Abin avisou as instituições envolvidas na operação e, de forma discreta, os empréstimos foram abortados. Ficou, contudo, no relatório da Abin, o registro do poder dos criminosos junto ao Estado. "Tal manuscrito (a carta inteceptada) demonstra todo o grau de envolvimento (.) (dos criminosos italianos) dentro de segmentos estratégicos da economia do Estado do Ceará".

Em outra operação, a Abin descobriu que os mafiosos realizavam "uma minuciosa pesquisa mercadológica e um estudo criterioso tentando detectar vulnerabilidades na legislação fiscal e tributária" do Estado.

Os criminosos, ainda segundo o dossiê, realizam uma "planejada aproximação com fiscais da Receita Federal, secretarias de Fazenda estaduais e municipais, despachantes aduaneiros etc., objetivando garantir a intervenção destes nos procedimentos legais pertinentes".

Golpe do italiano rico

Os mafiosos também aplicam golpes em empresários brasileiros, segundo apuraram os agentes da Abin. Os criminosos se apresentam como estrangeiros interessados em investir no País, oferecem-se como fonte do capital inicial para futuros negócios e acabam convencendo empresários brasileiros "sem antecedentes penais ou criminais" a abrirem empresas para legalizar a sociedade. Os italianos, no entanto, colocam uma condição: eles não querem aparecer. Assim, os brasileiros acabam, sem querem, se tornando testas-de-ferro dos mafiosos.

Outro golpe detectado foi a utilização de entidades filantrópicas no Brasil para legalizar o ingresso de dinheiro sujo do exterior. No Ceará, o esquema dos criminosos italianos incluía, segundo a Abin, um centro educacional que atuava na formação de menores carentes. Utilizando-se de empresas estabelecidas na Europa, os italianos faziam doações para a entidade e depois recolhiam o dinheiro no Brasil, desviando-o do seu fim legal.

"A internação de vultuosas somas no País, mediante procedimentos aparentemente fraudulentos, e as ligações (.) com estrangeiros suspeitos de pertencer ao crime organizado internacional indicam a alta probabilidade de o capital oriundo do exterior (.) ser originário de negócios ilícitos e (de estar sendo) aplicado (.) com a finalidade de reciclar o chamado dinheiro sujo", diz o relatório.

Fonte: Estado de Minas


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