Operário com tuberculose trabalha por 2 meses em obras do Santander.
Funcionário fez radiografia que apontou a doença. Ele foi aceito no exame admissional em novembro e trabalhou durante dois meses.
Um operário de 37 anos trabalhou com tuberculose por dois meses no canteiro de obras do centro de processamento de dados do Banco Santander, no distrito de Barão Geraldo, em Campinas. O trabalhador é do estado de Pernambuco e passou por exames admissionais antes de ser contratado pela empresa Hispabrás, terceirizada para Acciona Infraestructuras, construtora contratada para executar o serviço. Entre os exames feitos pelo operário está uma radiografia do pulmão que comprova a doença, mas mesmo com o diagnóstico ele foi autorizado a integrar a equipe, segundo Cerest (Centro de Referência em Saúde do Trabalhador) e a coordenadoria do Centro de Saúde de Barão Geraldo. O trabalhador não teve a identidade divulgada pelos órgãos de saúde.
Segundo o Ministério da Saúde, a tuberculose é uma doença infecto-contagiosa causada por uma bactéria que afeta principalmente os pulmões, mas, também pode ocorrer em outros órgãos do corpo, como ossos, rins e meninges (membranas que envolvem o cérebro). A transmissão é direta, de pessoa a pessoa. O doente expele, ao falar, espirrar ou tossir, pequenas gotas de saliva que contêm o agente infeccioso e podem ser aspiradas por outro indivíduo, contaminando-o.
O operário começou a trabalhar na obra em novembro, mas só foi afastado das funções no dia 5 de janeiro. Ele procurou o centro de saúde e apresentou a radiografia feita pela clínica de terapia ocupacional responsável pelo processo de contratação. Após constatação, a equipe médica iniciou o tratamento e pediu o isolamento do trabalhador no alojamento onde ele estava com outros operários em Barão Geraldo.
A Secretaria de Saúde avaliou cerca de 25 pessoas que tiveram contato com o trabalhador, mas não foi confirmado nenhum outro caso da doença. "O paciente com tuberculose está em tratamento, mas não há mais risco de transmissão", explica a coordenadora do Centro de Saúde de Barão Geraldo, Daniela Prunes Regi do Nascimento. Atualmente, 700 pessoas trabalham na construção do centro de processamento de dados do Santander, que vai abrigar uma unidade administrativa e outra de pesquisas para desenvolvimento de software financeiro e equipamentos que atendam à demanda do banco. A maior parte dos trabalhadores vivem em alojamentos alugados pelas empresas no distrito.
A reportagem do EPCampinas entrou em contato com a Hispabrás, mas até a tarde desta sexta-feira (3), não houve retorno. A assessoria de imprensa do Santander informou por meio de nota que "acionou a construtora responsável para que adote as diligências e providências que se fizerem necessárias para solução dos fatos noticiados.”
Irregularidades
Além do caso do trabalhador com tuberculose, vários órgãos, como o Ministério Público do Trabalho (MPT), Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Cerest e Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Campinas encontraram diversas irregularidades nas obras do centro de processamento de dados do Santander em duas fiscalizações. Na última dela, na terça-feira (31), uma grua e o setor de solda elétrica foram interditados e outras várias irregularidades foram encontradas, como falta de condições de segurança e de higiene para os trabalhadores, além de excesso de horas na jornada de trabalho.
Investigação
O Ministério Público do Trabalho analisa dois pedidos de representação contra o banco Santander que contêm denúncias de condições degradantes de trabalho, aliciamento e tráfico de trabalhadores, extinção de contrato de trabalho sem pagamento de rescisão e trabalho do estrangeiro no canteiro de obras do centro de processamento de dados.
De acordo com um dos processos, protocolado nesta quarta-feira (1º), funcionários da empresa Ecotek Brasil Serviços em Estrutura de Concreto estariam expostos às condições degradantes de trabalho, aliciamento e tráfico de trabalhadores, e também não teriam recebido a verba de rescisão de contrados. Segundo o fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) João Batista Amâncio, a empresa é espanhola e trouxe brasileiros que viviam em Portugal e na Espanha para prestarem o serviço. "Eles estão demitindo um a um, sem pagar a recisão. Além disso, eles fazem o pagamento para se regulamentarem com o MTE e o Ministério Público do Trabalho, e depois descontam dos trabalhadores", explicou o fiscal. Ainda segundo o MTE, a Ecotek é responsável por cerca de 400 operários das 700 pessoas que trabalham na obra atualmente.
O outro processo em andamento no Ministério Público do Trabalho diz respeito a acidentes de trabaho e falta de condições sanitárias e de conforto nos locais de trabalho. O denunciante é o Cerest. Neste caso, quem é citada como responsável pelos funcionários que, segundo a denúncia, se encontram em situação irregular é a Acciona Infraestructuras, construtora contratada pelo Santander para executar as obras do centro de processamento de dados do Santander. De qualquer forma, o banco é citado como co-responsável nos dois processos.
A reportagem do EPCampinas procurou algum representante da Ecotek e da Acciona para comentar o assunto, mas desde quarta-feira ninguém foi encontrado. Em nota o banco Santander informou que tomará as medidas necessárias para corrigir eventuais irregularidades. “Essas fiscalizações ainda não foram concluídas pelo MPT e, portanto o banco não foi notificado”, informa.