LEGALIZE IT

Mair Pena Neto (*)
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                     Ih, lá vem outro doidão defender a legalização das drogas! A expressão certamente deve passar pela cabeça de alguns que lerem o título deste artigo, mas a legião dos que vêem na legalização um importante passo na redução da violência e num melhor atendimento aos viciados não para de crescer. Ela reúne políticos, estudiosos, artistas, jornalistas e até a The Economist, que não faz muito tempo publicou matéria de capa defendendo a legalização das drogas.

O viés da The Economist era, naturalmente, econômico, defendendo que um negócio mundial estimado em 400 bilhões de dólares não deve permanecer nas mãos do crime organizado. Faz sentido. Toda esta dinheirama corre o mundo, sem nenhum retorno para a sociedade, servindo apenas para corromper, extorquir e financiar toda a sorte de ilegalidade, incluindo o terrorismo.

A visão obtusa da complexidade do problema limita o seu combate à repressão pura, sem nenhum resultado satisfatório. A truculenta política da Guerra às Drogas (War on Drugs) do governo dos Estados Unidos, que o Brasil parece seguir sem maiores questionamentos, tem se mostrado um fracasso completo, além de acirrar as tensões sociais já existentes nos países pobres.

Maior consumidor mundial de drogas, que não fabrica, importa, os Estados Unidos tentam resolver o problema exterminando plantações e determinando como os países devem enfrentar o tema. Mais uma vez, o que é bom para os EUA não é bom para o resto do mundo. O consumo de drogas e a escalada de violência que envolve o seu comércio é crescente e sentido, sobretudo, nos grandes centros urbanos dos países pobres ou em desenvolvimento.

O Rio de Janeiro vive em meio ao conflito causado pelas drogas e o governo do estado, com apoio de parte da sociedade, tenta incriminar o usuário. Devem ser favoráveis a pena dura para o ator Marcello Antony, flagrado comprando maconha em Porto Alegre. Taí um bom exemplo. Será que o ator, visto com freqüência nas telenovelas, é uma ameaça para a sociedade? Volta e meia alguma pessoa conhecida aparece dizendo que fuma maconha e é execrada publicamente.

A quem interessa isso? Certamente, a quem deseja manter a situação como tal, talvez até se beneficiando dela. A sociedade precisa enfrentar a questão das drogas de frente. Não se trata de apologia, mas de deixar a hipocrisia de lado. E é melhor tratar as drogas como questão de saúde pública, sob controle dos governos, do que como crime, nas mãos da bandidagem. Drogas sempre foram consumidas, historicamente, e não deixarão de ser, por decreto.

Aliás, o mais famoso dos decretos neste sentido, a Lei Seca norte-americana, que durou mais de uma década, só serviu para a proliferação de máfias, corrupção policial e enriquecimento ilícito de certas famílias de prestígio, que elegeram até um presidente democrata. As gangues que se confrontam nos morros do Rio não passam de um bando de moleques armados se matando e matando outros sem sentido. A verdadeira grana do tráfico está sendo lavada nos paraísos fiscais e financiando campanhas que ninguém vê. Quando os representantes do tráfico chegarem ao poder, se é que já não estão, será muito tarde.

(*) Mair Pena Neto - Trabalhou no Globo, JB e Agência Estado.
Foi correspondente da F-1 em Londres, durante 3 anos.
Foi editor de política do JB e repórter especial de economia.
Artigo publicado em 05/05/2004 no Direto da Redação
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