Há cerca de doze anos, tivemos oportunidade de participar de palestra proferida por um integrante do DEA ( Agência norte americana que combate o narcotráfico ), no decorrer da qual o orador vaticinava que, qualquer país latino-americano que não adotasse medidas tendentes a deter o ímpeto dos traficantes, poderia ter seu destino comparado ao da Colômbia.
Salientava ele na ocasião, o domínio de certas áreas das cidades ( ainda na Colômbia ) por parte dos traficantes, a ingerência destes com o poder legislativo, a corrupção alastrando-se em diversos níveis e atingindo os tribunais, tudo isso embasado por uma crescente noção de impunidade.
Abordava, também na ocasião, a adoção do seqüestro como prática rotineira que objetivava arrecadar fortunas e redirecioná-las ao tráfico, os assassinatos de autoridades que se opunham ao crime organizado, e amplo emprego de motocicletas nesses atentados.
Os chamados barões da cocaína, naquele país, aproveitavam-se da lacuna deixada pelos governos e apresentavam-se como capazes de minorar o sofrimento da população carente, seja empregando os jovens em seus bandos e proporcionando-lhes ganhos vultosos, seja praticando atos assistencialistas nas comunidades de baixa renda onde a ação do poder público não se fazia presente.
De lá até os dias presentes, vimos o quadro antes delineado transformar-se em um esboço e hoje, estamos muito próximos de contemplá-lo por completo.
Componentes para isso não nos faltam. Passamos pelos parlamentares ligados ao tráfico, pela venda de decisões judiciais, pelo controle total de certas áreas da cidade ( controle esse que abrange o julgamento e a execução de quem contraria a "lei" vigente, inclusive jornalistas ), o despreparo das polícias inferiorizadas nesse enfrentamento ( que se traduz pelo alto número de policiais mortos em serviço ). Estão, enfim, aí reunidos os componentes que conduzem à sensação de insegurança que atinge diariamente o cidadão de bem que é obrigado a lançar mão de esquemas de proteção e segurança privados diante da ausência do poder público.
Parece-nos muito claro que nesses anos o interesse do Governo Federal pelo problema não se fez de modo proporcional à sua gravidade. Os quadros da Polícia Federal de há muito são insuficientes para o cumprimento das missões a ela cominadas. As falhas daí decorrentes comprometem significativamente duas vertentes da maior importância: o combate ao narcotráfico e ao contrabando de armas.
No momento presente, planejamentos e pronunciamentos chegam à mídia, mas os efeitos destes não alcançam a população cada vez mais desprotegida.
O Ministério da Justiça, há meses anunciava a imediata contratação de cinco mil policiais federais, objetivando diminuir a lacuna existente naquele órgão. Até hoje tais reforços não foram implementados.
No âmbito dos Estados, o noticiário diário enfocando troca de tiros entre quadrilhas rivais, assaltos, seqüestros e balas perdidas vitimando inocentes, é uma constante.
As policias estaduais, mal pagas e mal preparadas, e, em alguns casos, sob comando de autoridades mais preocupadas com as chamadas "operações pirotécnicas" surgidas logo após algum crime que tenha concentrado a atenção da mídia, passam ao largo de soluções que venham efetivamente atingir o cerne do problema.
A polícia tem agido a reboque dos acontecimentos, ou seja após a prática criminosa, não conseguindo assim, evitá-la nem preveni-la.
Uma real constatação do clima instalado, por exemplo, no Rio de Janeiro, é a recomendação feita a executivos que chegam à cidade ao anoitecer, pelo aeroporto internacional do Galeão, para que pernoitem no hotel ali existente, evitando trafegar próximo as áreas de conflito da Favela da Maré, Avenida Brasil, Linha Amarela, etc. durante a noite.
Em São Paulo é significativo o incremento registrado nos últimos tempos, do chamado "seqüestro relâmpago" desta vez com uma característica marcante: há duas semanas seis seqüestros praticados, nessa modalidade, visavam o pagamento de "resgates" inferiores a 500 reais. Em todos os casos os autores dos crimes eram primários, sem quaisquer antecedentes, e conhecidos nas comunidades que freqüentavam como pessoas pacatas.
Para não corrermos o risco de sermos taxados de simplistas, temos que nos reportar ao fato de que sérios problemas de ordem econômica e o engessamento dos programas sociais contribuem significativamente para a proliferação de conglomerados humanos que sobrevivem em favelas e guetos sem a menor perspectiva de melhora, assolados pelo crescente desemprego, prescindindo de condições mínimas de saúde e de educação.
Anos seguidos de políticas demagógicas conduziram aos grandes centros hordas de retirantes, principalmente do Norte e Nordeste, atraídos por promessas de emprego e de ganhos financeiros. Frustrados em suas perspectivas constituem-se em expressivo contingente de ocupação na maioria das favelas.
Esse é o caldo de cultura que fomenta a violência e o crime.
Não será com discursos e pronunciamentos, que veremos revertido um quadro que vem agravando-se durante anos, e que, embora produza efeitos gravíssimos na área da segurança pública, exige mobilização de outros setores governamentais com igual responsabilidade.
Roberto da Luz
É Consultor em Segurança, Analista de Informações, Delegado de Polícia no Rio de Janeiro - Apos., Instrutor da Academia de Polícia, Ex - Diretor de Operações da Guarda Municipal do Rio de Janeiro.