SEGURANÇA CORPORATIVA - Conjuntura & Ameaças

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"Nunca tantos dependeram de tão poucos "
Sir Winston Churchill


                                           O que mudou ? Mudou a sociedade, mudaram as organizações ou as pessoas ? Tudo e todos mudaram. O inconsciente coletivo hoje trabalha com o medo e as organizações empresariais vivem sob o risco real e imediato de agressões internas e externas das mais variadas fontes e intensidades.


                                            O custeio da segurança em alguns setores econômicos representa hoje um vetor insustentável entre manter o negócio ou fechar as portas. As empresas não só tem de avançar na proteção de seus clientes e colaboradores internamente, como também estão sendo obrigadas a coberturas externas visando proteção pessoal de seus executivos e até de clientes.


                                            Material recente produzido por analistas de conjuntura e informação do governo americano, sinalizam para o risco de uma nova conexão entre o narcotráfico e o terrorismo no continente sul americano, visando a estruturação de novas formas de poder paralelo e a desestruturação do poder legal.


                                             Ainda que a lógica da legalidade assuma sempre a dianteira quando se trata de exibir resultados, até por aspectos de fundo político ou social, a verdade esbarra no dia-a-dia, mantendo situações insustentáveis e que nem sempre podem ou devem esperar por modificações na legislação ou por medidas de efeito pirotécnico, algumas "requentadas" que sempre são sacadas de alguma gaveta onde estava adormecida quando o clamor público avulta e a mídia denuncia o estado da pré-barbárie.


                                             Se no conjunto da segurança pública, cujo tema aqui não cabe adentrar, a situação não é a desejada, na segurança empresarial o problema se torna mais complexo. Cabe pontuar de início que por sua característica privada, ou seja, de bens, capital e interesses privados, as ameaças contra as organizações tem maior dimensão, já que estas não tem, salvo situações de cobertura por seguro, onde buscar reposição dos gastos e de prejuízos causados por ações criminosas.


                                              As empresas sofrem os problemas de insegurança de forma dupla. Os problemas atingem a estrutura econômica (como no caso do setor de cargas) a estrutura financeira pelo custeio de cada vez mais produtos, equipamentos e serviços de segurança, e a estrutura do negócio, já que grande parte dos riscos atuais, visa ataques ao
sistema de Tecnologia da Informação e Comunicação da empresa, fraudes das mais variadas e danos diversos no esquema de logística e produção. Além disso, passam pelos efeitos da insegurança coletiva, que impõe riscos até mesmo em função da localização física de suas instalações.


                                              Nesse contexto de complexidade crescente, as atividades econômicas deverão organizar-se internamente para fazer frente as ameaças e riscos do negócio, organizando-se para o enfrentamento e o controle dos riscos. Em princípio, isso significa de início, entender segurança como um "insumo" do negócio, uma parte ativa da tecnologia de produção de bens, produtos ou serviços realizado pela organização, qualquer que seja seu porte.


                                              Desse entendimento, deverá surgir o conceito de segurança como um "processo", na acepção consolidada que tem em planejamento estratégico. Isso possibilita que segurança tenha um conjunto de responsabilidades, projetos e resultados monitorados, auditados e inseridos nos planos da empresa, tal qual, marketing ou finanças.   Presentemente, na quase totalidade das atividades econômicas percebe-se a segurança como uma "subestrutura" vinculada a uma área de terceiro escalão, cujas funções quase sempre se resumem a tarefas repetitivas, de complexidade mínima e de significado relativo no conjunto das atividades da organização. Por outro lado, o desconhecimento das ofertas de segurança empresarial, fazem com que as demandas, resumam-se a atividades de "remendo" ou "de colocar cadeado após a porta ser arrombada", ou seja, gera-se um "pacto da mediocridade", onde finge-se que se tem segurança e a segurança finge que
existe...


                                              Basta uma passada pelos classificados de jornal para perceber o conjunto de atribuições e o perfil exigido para o cargo, para obter-se a realidade da segurança em algumas empresas. Por outro lado, a superposição de tarefas com que se vislumbra a segurança, faz com que algumas organizações improvisem profissionais de uma das áreas de segurança (ocupacional p.ex) para "assumirem" outros segmentos da segurança. Já que o que se busca é a redução de custos, não seria também viável fazer com que o gerente financeiro acumulasse funções das atividades de manutenção? afinal, saberia com muita propriedade e competência reduzir custos e otimizar o setor de manutenção (ainda que o sistema financeiro fosse levado ao caos...). O comentário jocoso aplica-se integralmente a segurança, quando transposto para suas funções, executado por pessoal improvisado e cujo único compromisso com a empresa é garantir o contracheque!


                                              Percebe-se que os riscos de segurança aumentam pelo uso do "jeitinho". Esse fato pode ser comprovado pela segurança de TI, quando alguém é "guindado" para a área de segurança lógica e de informações, e que com mais um acréscimo em seu salário, assume a segurança do negócio ! Ou seja, esse profissional tem acesso a todo o sistema de dados, negócios, pessoas, planos, planejamento e gestão da empresa, a um toque do mouse, sem que em contrapartida tenha havido um mínimo de cuidados quanto a seleção/formação/perfil de segurança, ou seja, enquanto a
preocupação está voltada para portaria e muros...a empresa pode nem mesmoestar mais "lá dentro"...


                                                Num ambiente de total confusão quanto ao sistema de segurança, não é raro encontrarmos os subsistemas de segurança divididos, sem coordenação central e sem acesso a direção da empresa. Isso significa que uma fraude poderá ser cometida e outros danos serem causados, pois talvez seus responsáveis e autores, sejam os próprios a quem cabe "comandar" a segurança da empresa, ou seja, coloca-se " a raposa tomando conta do galinheiro"!


                                                Ainda nessa confusão, a segurança passa a ter função somente reativa, ou seja, passa a funcionar quando provocada, ignorando o conceito básico da segurança que é o da prevenção. Como parece existir um deliberado propósito do não funcionamento da segurança, seus meios e recursos não existem, são sempre repassados a
outras estruturas, onde a simpatia pelo resultado é maior. Esse cenário tem sido responsável pelo elevado "turn-over" do pessoal de segurança, com graves reflexos para os resultados de segurança esperados pela empresa. Na concessão de meios e recursos para a segurança, o equívoco quase sempre é total. O segmento pede um tipo de serviço ou material, e logo aparece "alguém" para conseguir "mais barato" o produto ou serviço, e quando a inadequação gerar resultados danosos e/ou desastrosos, esse "alguém" terá a desculpa do " não sabia" ! Assim, a segurança desgasta-se e não consegue atender plenamente as suas demandas, assumindo a incompetência que lhe foi imposta.


                                                 Lembramos aqui o caso de um profissional que após tolerar toda a sorte de desajustes e desacertos por parte da unidade gerencial a que estava subordinado, desligou-se da empresa, e veio a saber após dois meses  por um empregado, que todos os problemas que passava tinham por escopo sua retirada da empresa, já que fraudes envolvendo pagamentos fantasmas em folha de pessoal, pagamentos a fornecedores por mercadorias não entregues e venda irregular de sucata ocorriam na empresa, e que sua presença poderia levar a descoberta dos crimes, motivo que levou em
seguida a empresa, aconselhada péla unidade gerencial autora das fraudes, a extinguir a função, e apenas manter o serviço de guardas nas portarias...


                                                  Os   riscos e ameaças internas e/ou externas aumentam proporcionalmente ao sentimento de que não existe controle efetivo sobre a prevenção ou neutralização aos danos. A cooptação de empregados para obter informações e dados nunca foi tão intensa por parte de concorrentes, e isso se dá pela certeza absoluta da impunidade e da total falta de uma política de segurança na empresa. O trato da informação na empresa não segue nenhum parâmetro de segurança, e torna-se comum que nos corredores, em bares e até nos meios de transporte sejam discutidos assuntos de alto significado estratégico e negocial. Isso se dá porque não existe um sistema de "segurança da informação" que adote medidas
tendentes a evitar riscos. Aliás, na maioria das vezes não é preciso nem perder muito tempo na busca de informações. Uma implantação de escuta ambiental  num veiculo ou sala da empresa, é suficiente para saber dos passos do concorrente e quais são seus planos futuros...


                                           Em contrapartida, furtos seguidos que poderiam ter identificados seus autores, não o são, porque a segurança não teria recursos para a locação de equipamentos eletrônicos que acabassem com o problema. Também é possível perceber dificuldades quando a segurança necessita de treinamento ou reciclagem. O programa é postergado, ou então friamente é dito: "não precisamos disso aqui na empresa!". Com esse conjunto de dificuldades não é difícil perceber o porque das fraudes e crimes cometidos contra as empresas, quase sempre com atores internos que precisam que a segurança não funcione !


                                            Os impactos na economia a partir do conceito de globalização, com concorrência acirrada e nem sempre ética por mercados, além dos problemas internos vinculados a desestruturação ocupacional que gera o descomprometimento ético-funcional, aliado a conjuntura social, incentiva a realização de ações desonestas para atores
que "querem levar vantagem em tudo"


                                            Os novos cenários da segurança empresarial mostram que parafraseando Churchill, quando no mais duro momento da segunda grande guerra, vendo sua Inglaterra sob o risco das V-2, cunhou a frase introdutória desse artigo, ao referir-se ao preparo para o Dia D, e da necessidade do sucesso dos comandos que deveriam operar junto com os
"maquis"  franceses, para a supressão das comunicações e logística dos alemães, também para a continuidade dos negócios e para que as empresas assegurem sua atividade econômica, mas do que nunca  segurança será um indicativo para a sobrevivência.

 

Carlos Paiva - Presidente do Comitê de Segurança Empresarial da ABS - Agência Brasil de Segurança E-mail:paiva@pointtrade.com