VIATURAS BLINDADAS PARA
O SERVIÇO POLICIAL
No âmbito do serviço policial há muitas utilidades para uma viatura blindada. O primeiro é o emprego de tais carros no controle de distúrbios civis. Viaturas blindadas são empregadas para conduzir e apoiar as frações de tropa empregadas na dissolução de manifestações, bem como plataforma para o emprego de armamento não letal como lançadores de gás, balas de borracha e canhões d´água. As viaturas blindadas também são úteis no patrulhamento e no combate ao crime, tanto que, nos últimos dois anos, países como Taiwan, Malásia, Indonésia, Grã-Bretanha e Austrália vem renovando suas frotas de veículos blindados.

O
crescimento das metrópoles e a favelização de parcelas da área urbana vem
criando verdadeiros “santuários” para a criminalidade, onde a força policial
tem cada vez mais dificuldade de patrulhar. Quando de suas incursões em
favelas, os policiais tem de progredir sob intenso fogo, necessitando portanto
do apoio de veículos blindados. Há tempos vinha considerando a impropriedade
dos veículos blindados que se vem adquirindo para a Polícia carioca. O presente
trabalho pretende, de forma breve, expor minhas considerações acerca do que,
acredito, seja o melhor para a nossa polícia, permanentemente engajada numa luta
árdua, em um cenário tático o qual infelizmente só tende a agravar-se.
A
idéia de dotar o BOPE e os demais Batalhões de Polícia Militar do Estado do Rio
de Janeiro de viaturas blindadas para transporte de policiais à áreas
conflagradas é correta e irrepreensível, porém eu discuto se o modelo por nós
adquirido seria realmente o mais adequado, quer em face das atuais
necessidades, quer em face daquilo que se espera estar enfrentando em futuro
próximo. Não é interesse deste estudo execrar os gestores da segurança pública
do Rio de Janeiro, até pelo reconhecimento de que, comprando os blindados eles
estão fazendo algo em prol dos policiais e da sociedade; porém acredito que a
crítica valha à pena, até para que, no Rio ou em outras unidades da federação,
se possa aprender com tais experiências.
O
desenho do carro, que está sendo adaptado para atuar em um cenário cada vez
mais militarizado é inegavelmente “civil”. O carro adquirido até pode se constituir
numa opção mais barata; porém, convenhamos, às vezes o barato sai caro. Para
mim está claro que deveríamos contar com dos tipos de viatura: uma blindada
leve e ágil, do porte aproximado de um jipe (predominantemente para patrulhas
ou eventualmente perseguição) e outra maior, esta sim destinada a – nas operações
– levar uma fração de tropa equipada no interior de uma área conflagrada.
O desenho dos carros recentemente adquiridos, claramente adaptado de uma viatura de transporte de valores concebida para rodar apenas na cidade, não lhes permite uma mobilidade adequada em terrenos irregulares (mesmo os urbanos). Aparentemente o blindado não foi testado em condições severas. A veículo de transporte de valores blindado do qual ele se deriva não teria a necessidade de galgar meio-fios altos, romper barricadas ou subir ladeiras íngremes transportando um peso equivalente ao de uma dezena de policiais equipados.

h – a distância (altura) entre a carroceria e a superfície da pista de
rodagem, na frente do carro;
x – distância entre a roda e a frente da carroceria, na frente do carro;
h´- distância (altura) da carroceria ao chão na traseira do carro;
x´- distância entre a roda e a traseira do carro
A partir do desenho constatamos que o carro – apelidado de “Caveirão” numa alusão ao símbolo da unidade de operações especiais da polícia carioca – terá muita dificuldade em subir um degrau, ou vencer, em altura, qualquer obstáculo dianteiro vertical. Para propósito de melhor mobilidade vê-se que a esmagadora maioria das viaturas blindadas de transporte de pessoal sobre rodas têm sua roda posicionada praticamente na extremidade da carroceria. Como exemplifica a combinação da distância x` com h`, o veículo arrastará a traseira sempre que for subir um meio fio de maior altura ou no caso de tentar galgar uma ladeira de maior inclinação (gradiente), terreno excepcionalmente comum nos morros cariocas. A mídia carioca já reportou de forma bastante jocosa, situação em que o carro blindado da polícia não teria conseguido subir uma ladeira! Pressuposto básico para uma viatura de transporte de tropa é ter mobilidade e a do nosso “novo” carro já demonstrou ser visivelmente comprometida, ou, na melhor da hipóteses, limitada.

Ouso
opinar que desenho do antigo “Paladino”, com sua altura relativa ao solo,
posicionamento de rodas e blindagem inclinada, mesmo carecendo da torre, do
conforto e de outras eventuais modificações, é ainda muito mais adequado que novo “Caveirão”
Embora
o “Caveirão” conte com excelente visibilidade da área exterior, se deveria ter
concebido “coberturas” para as janelas, a fim de serem abaixadas no caso de
tiroteios intensos. Os vidros blindados são dimensionados para resistir ao
impacto de um tiro de fuzil, porém todos sabemos que não são invulneráveis. Os criminosos sabem que podem provocar o
colapso da blindagem dos vidros atingindo-os repetidamente num mesmo ponto (ou
num ponto bem próximo), por isso a necessidade de contar com escudos para os
vidros. Vale ressaltar que a substituição dos vidros é onerosa, principalmente
levando em consideração nossos parcos orçamentos...
No caso dos vidros da posição do motorista (pára
brisas e lateral), acreditamos que seja indispensável a colocação de uma tela
metálica resistente à impactos de objetos. Embora os vidro sejam sabidamente
blindados, para conduzir o veículo o motorista necessita que ele seja
transparente. Se atingido por duas ou três pedradas (ou tijoladas) o vidro
poderá ter sua translucidez comprometida e a dirigibilidade do carro será
prejudicada. Um recurso alternativo simples e barato seria o de dotar o veículo
de câmeras de circuito fechado de televisão (acondicionadas em abrigo blindado)
em cada quadrante do carro, que permitissem uma visualização da área exterior.
Uma opção interessante para a progressão em áreas de risco consistiria em dotar o veículo de uma câmera de TV, com “zoom” e especialmente capacitada para operar em condições de baixa luminosidade, a qual ficaria afixada em um “shelter” blindado na extremidade de um braço telescópico. Uma vez na área conflagrada o veículo estenderia o braço telescópico e a Câmera permitiria fazer um preciso reconhecimento (em 360º) de toda a área circunvizinha. Uma vez que nem sempre a polícia pode coordenar o emprego da viatura blindada com o apoio de helicópteros, a partir de tal varredura visual, se poderia detectar o posicionamento dos criminosos e avaliar os melhores cursos de ação.

Coberturas para os vidros estão bem visíveis no carro
britânico
HUMBER
“PIG”, concebido inicialmente para uso militar e depois empregado
para
propósito de segurança interna por diversas polícias no mundo
A blindagem plana do “Caveirão” foi dimensionada para resistir a impacto dos fuzis calibre 7,62x51, 7,62x39, .223”Remington...mas aparentemente se desconsiderou que a criminalidade poderá vir a usar calibres mais potentes como o .306 perfurante (“trinta zero meia”) e até mesmo o .50”. Quando da seleção do carro se deveria ter atentado para a capacidade do mesmo em fazer frente ao recrudescimento das ameaças da criminalidade num futuro breve, porém previsível. Vale ressaltar que originalmente o “Caveirão” não contava com pneus à prova de bala e – diferentemente dos veículos militares de transporte de tropas – o fundo de seu casco não era resistente a projéteis ou estilhaços.


Pela
limitações de mobilidade de carros como o “Caveirão” e a necessidade proteção,
advogo francamente a favor de empregar veículos militares adaptados como uma
solução de custo mais ainda mais baixo. A blindagem mais resistente e a
mobilidade visivelmente maior tende a se constituir numa proteção mais efetiva
para os policiais em operação. Diversas forças policiais do mundo inteiro
optaram por adaptar modelos militares ou empregar viaturas militares compradas
de “segunda mão” como as fotos demonstram. Há mesmo cidades americanas cujas
polícias utilizam veículos de lagarta como o M-59 e o M-113.


Acima o veículo britânico SIMBA da GKN/Alvis,
produzido localmente nas Filipinas.
As
primeiras fotos referem-se à versão policial/anti-distúrbios, exportada
para o Golfo Pérsico.


Em
cores policiais, uma viatura blindada de transporte sobre lagartas M-59. Pesadas
e
de manutenção dispendiosa já foram empregadas pelo Exército Brasileiro.

Uma grande quantidade de veículos britânicos ALVIS SARRACEN, descartados do exército britânico, encontrou emprego como viaturas policiais na Irlanda, península arábica e também nos Estados Unidos

Em face do risco de emprego pela criminalidade de lançadores de foguetes anti-tanque como o M-72 – recurso dos quais os criminosos dispõe e apenas por sorte não foi usado contra a polícia até hoje – a estrutura do carro, bem como seu grupo propulsor e suspensão, deve permitir a colocação de uma blindagem do tipo “gaiola” sem acarretar uma significativa degradação da performance. A referida proteção detona as granadas anti-tanque de carga oca (HEAT) antes delas poderem chegar à carroceria do carro, garantindo maiores chances de sobrevivência para o veículo e seus ocupantes.

Há
diversas soluções que mereciam ser melhor estudadas antes de se buscar comprar
o “Caveirão”. A necessidade de adquirir veículos para outras polícias estaduais
talvez permitisse uma economia de escala que justificasse um novo projeto
nacional, mais adequado que o do presente veículo. A padronização de modelos
das frotas é algo difícil mas está contemplada dentre as prioridades estudadas
pela SENASP. Outros Estados certamente vão necessitar adquirir carros blindados
para suas polícias em futuro próximo. Países como as Filipinas e a antiga
Rodésia (atual Zimbábue), com muito menos capacidade industrial que o Brasil,
produzem (no caso das Filipinas) ou produziram (no caso da antiga colônia
africana britânica) veículos de características muito interessantes.

Necessitando de uma grande quantidade de veículos
para as Forças Armadas
e a Polícia, as Filipinas produzem localmente o KÀLAKIAN

Veículos como o CROCODILE (esq.) e o PIG (dir.)foram
produzidos na Rodésia durante os anos 70, a partir de chassis de caminhões.
Atente-se para a blindagem com boa inclinação.
A
importação de veículos é uma possibilidade, embora particularmente não disponha
de dados acerca dos impostos ou certificações necessárias para a eventual
aquisição desses veículos importados pelo Brasil. Apenas para que se tenha uma
idéia, um Alvis SARRACEN completamente reformado, de 2ª mão, nos Estados Unidos
custaria cerca de US$26.000,000 (vinte seis mil dólares). Duas possibilidades de
adoção seriam as viaturas sul-africanas como a CASPIR, adotadas também em larga
escala pela Índia, ou as britânicas SAXON, especialmente projetadas para operar
em terrenos difíceis, proporcionando à tropa uma total proteção contra armas
leves e minas anti-veículo.

Uma
grande quantidade de CASSPIR foi também produzida na Índia


O
SAXON foi produzido com o objetivo de tornar-se um “Táxi do campo de batalha”
para a infantaria do Exército Britânico

A
solução à favor da qual advogo, consistiria em gestionar junto ao Ministério da
Defesa a cessão de algumas viaturas blindadas URUTU da antiga ENGESA, ou tentar
adquiri-las, de segunda-mão, junto à países latino americanos. O exército
brasileiro dispõe de centenas desses carros. Caso os veículos não estejam em
bom estado, a “reforma” dos mesmos poderá ser executada em parceria com as
Forças Armadas a um custo menor. A idéia de optar pelo veículo da ENGESA
deve-se somente às premissas de custo benefício do emprego do mesmo. Há carros
igualmente bem blindados e mais leves (com dois eixos); há carros que
transportam mais homens (o URUTU leva até dez soldados equipados); há outros
veículos anfíbios...mas nenhum deles tão amplamente difundido no Brasil...
Sinceramente, não creio que precisássemos pensar muito!?

O
antigo carro nacional teria inegáveis vantagens sobre o atual “Caveirão”:
a)
Blindagem resistente a impactos de armas até o calibre .50” praticamente sobre
quaisquer ângulos;
b)
Possibilidade de dotar-se o carro de uma torre blindada ou de escudos para o
comandante;
c)
Os carros já vem de fábrica com pneus blindados;
d)
Extrema solidez estrutural, capaz de facilmente receber a blindagem tipo
gaiola;
e)
Dimensões comparáveis ao “Caveirão”
f)
Mobilidade infinitamente superior (vide foto);
g)
Capacidade anfíbia, a qual poderá ser muito útil em casos de calamidade
pública, produzindo uma imagem bastante favorável da força policial junto à
população;
h)
Robustez superior do veículo;
i)
Amplo “know-how” para a
repotencialização e manutenção das Forças Armadas;
j)
Possibilidade de contar com ampla rede de sobressalentes e manutenção de custo
baixo;
k)
Possibilidade de receber ar condicionado.
No
patamar dos “blindados leves” aos quais me referi inicialmente há uma grande
possibilidade de escolha de carros. O custo unitário de tais veículos novos –
tanto no exterior, quanto no Brasil – poderia eventualmente vir a superar o dos
URUTUS de 2ª mão; mas novamente a economia de escala poderia favorecer-nos com
encomendas que atendessem a vários Estados. Imagino que os “blindados leves”
seriam empregados como PATAMOS, dissuadindo pela presença ostensiva enquanto
pré-posicionadas em locais de risco e explorando sua velocidade e agilidade em
contra-ataques limitados. Há projetos de veículos na categoria proposta
desenvolvidos pela indústria nacional, como o da INBRAFILTRO.

À esquerda, o blindado ALIGATOR de fabricação
Eslovaca e
à direita o COBRA de fabricação turca

O novo blindado leve brasileiro da INBRAFILTRO
capaz
de conduzir confortavelmente 5 policiais
Poder-se-ia
optar por jipes blindados como o SHORLAND (sobre chassis da Land Rover), os
Jipes blindados israelenses (com chassis Jeep/Ford), ou o HUMMER americano.
Tais veículos também são encontrados no mercado de “segunda-mão” e sua
blindagem poderia ser recondicionada no Brasil, sem problemas.

Carros
como o Shorland, da Short Brothers sobre chassis Land Rover, ou jipes blindados
como os israelenses (à direita) podem ser opções válidas.
Quando
se fala na adoção de material para uso militar ou policial, ninguém deve
arrogar-se “dono da verdade” pois é comum que equipamentos cujo projeto
apresentava características admiráveis venha a demonstrar suas fraquezas no
campo, muitas vezes comprometendo quase que irremediavelmente seu emprego. Nem
sempre o que funciona bem na prancheta (ou no CAD) vai comportar-se na situação
crítica real da forma que o usuário gostaria ou necessita. No Iraque, os americanos
estão aplicando sobre-blindagens aos seus HUMMER e caminhões, na esperança de
conferir maiores chances de sobrevivência aos veículos e suas tripulações.


Numa
improvisação dos mecânicos americanos no Iraque, a carcaça de alumínio da
viatura blindada de transporte M-113 foi cortada e aplicada ao chassi do
caminhão militar
Confrontando-se
com uma criminalidade cada vez mais ousada e bem armada e que detém recursos
financeiros praticamente ilimitados, necessitamos de veículos blindados que nos
permitam não somente confrontar as ameaças atuais, mas também proteger nossos
policiais em face daquilo que os criminosos possam estar empregando contra eles
amanhã ou depois.
ã by Vinicius Domingues Cavalcante 2004.

VINICIUS DOMINGUES CAVALCANTE, CPP, o autor, é profissional de segurança
certificado pela American Society for Industrial Security e integra a Diretoria
de Segurança da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Graduando em Gestão da
Segurança pela Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, detém diversos
cursos na área de planejamento de segurança e segurança pessoal de executivos e
autoridades. Foi instrutor convidado no Estágio de Técnicas de Abordagem da
PMERJ. Colaborador atuante em publicações especializadas em segurança como as revistas
PROTEGER (Editora Magnum Ltda/ SP),
SECURITY (Editora CIPA/SP) , SEGURANÇA PRIVADA (do Sindicato das
Empresas de Segurança do Rio de Janeiro), SESVESP (do Sindicato das Empresas de
Segurança do Estado de São Paulo), JORNAL DA SEGURANÇA (C-4 EDITORA/SP),
SEGURIDAD LATINA (INTERTEC PUBLISHING/U.S.A.) e GLOBAL ENFORCEMENT REVIEW, nos
portais “on-line” FIREPOWER (http://www.firepower.cjb.net), SEGURED.COM
(http://www.segured.com) FORO DE SEGURIDAD (www.forodeseguridad.com). Possui
artigos sobre segurança publicados no Jornal O GLOBO, bem como teve trabalhos
sobre inteligência e segurança exibido na “Home Page” da ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA
DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Membro da Associação dos Técnicos de Segurança
Patrimonial do Brasil , da Associação dos Diplomados em Gestão da Segurança, da
International Association of Counterterrorist and Security Professionals e do
Instituto de Defesa Nacional (IDEN).