Os Seguranças são Sempre os Culpados?
Vinícius Domingues Cavalcante, CPP
Qualquer profissional que faça o que gosta e que busque um aperfeiçoamento contínuo naquilo que faz se torna uma espécie de fonte de referência e consulta para os amigos e pessoas de seu círculo. Pessoas assim acabam se transformando em consultores informais nos referidos assuntos e isso acontece com os médicos, advogados, arquitetos e também com os profissionais de segurança. Com trabalho nada invejável de prevenir e atuar em face de ocorrências adversas, por vezes nos vemos às voltas com a tarefa de tentar esclarecer as pessoas comuns acerca de aspectos de nossa atividade profissional – técnicas e táticas – que nem sempre são claras ou facilmente explicáveis. O que se faz nesses casos? Como se procede para evitar isso ou aquilo? Nessa situação agiram corretamente? Onde foi que se errou? São todas perguntas comuns, as quais buscamos responder objetivamente, na medida do possível (às vezes com as poucas informações disponíveis num primeiro momento) e com o escrúpulo de quem conhece os óbices mais comuns no cotidiano daqueles que planejam e executam os serviços de proteção.

Vez por outra a mídia nos reporta ocorrências como a do desempregado que forçou passagem no Palácio para falar com o Presidente, nos sucessivos assassinatos de políticos fluminenses e mesmo o infortúnio pelo qual passaram a Ministra Ellen Gracie e o seu Vice–Presidente no Supremo Tribunal Federal, o Ministro Gilmar Mendes. Nessas ocasiões os amigos costumam indagar sobre os erros e acertos das respectivas seguranças que deveria proteger duas das maiores autoridades do judiciário brasileiro. Foi assim quando o ativista judeu Yigal Amir disparou contra o Primeiro Ministro Rabin à queima-roupa; quando aquele entusiasmado professor pulou no pescoço do Presidente Lula, quando de seu desfile de posse em Brasília; quando surgiram as primeiras vítimas do Antraz por via postal; quando os adeptos da caça às raposas invadiram o Parlamento Britânico; quando os ativistas do MSLT invadiram a nossa ainda vulnerável Câmara Federal e promoveram uma depredação sem precedentes...
Em geral, o trabalho de uma segurança pessoal só aparece quando erros são cometidos, e nessas missões, não se deveria substituir as boas táticas pela boa sorte. A rigor, se dermos sorte, podemos levar muito tempo até que surja uma ocorrência de ataque, agressão, roubo, tomada de refém, tentativa de assassinato ou outro tipo de atentado; porém, quando isso acontece a segurança invariavelmente é responsabilizada, tenha ela culpa ou não. O que o público normalmente desconhece é que, embora contrariando a boa técnica, na maioria das vezes é a vontade do protegido que prepondera. Como não se trata de um ponto de vista puramente técnico, por isso, muitas vezes, os seguranças acabam se vendo às voltas com situações que bem se parecem com a materialização de seus piores pesadelos. Garantir a integridade de alguém em meio à violência promovida pela criminalidade no Brasil, hoje, convenhamos não é tarefa fácil. Para que se faça uma boa segurança, é necessário dispor de dados relativos às características pessoais, personalidade e hábitos da autoridade a ser protegida; mas sua vontade pessoal não deveria ser levada em consideração, sempre que o seu atendimento implicasse em risco para o esquema de segurança e conseqüentemente para a sua própria proteção como dignitário. Teoricamente a atividade de salvaguardar a integridade de pessoas e instituições deveria constituir-se num ramo técnico, especializado e muitíssimo menos sujeito aos “achismos” e ao gosto de autoridades que ignoram o assunto, porém no mundo real não é isso que acontece. Na maioria do casos, os seguranças são os menos culpados pelas condições de fragilidade nos esquemas de proteção. Quando não é improvisado para o exercício da missão, o agente de segurança é alguém que busca obrigatoriamente conhecer suas limitações, que estuda a maneira de agir daquelas pessoas ou grupos que podem intentar contra seu protegido; daí torna-se sempre cauteloso, desconfiado e suas intervenções, por mais que eventualmente restrinjam a liberdade de seus segurados, objetivam sempre mantê-los à salvo. Divergir do protegido muitas das vezes é o que garante a incolumidade de ambos e isso não deveria ser esquecido.

Uma outra questão diretamente responsável pela degradação do grau de proteção que a segurança proporciona é o desconhecimento dos aspectos técnicos da atividade por parte dos dignitários. O principal problema – para o qual, aliás, não tenho solução – é que, na prática, muitos serviços de segurança de dignitários são diretamente condicionados pela opinião das autoridades seguradas, as quais não são capazes de avaliar corretamente os perigos as quais estão sujeitas. Como situações adversas não acontecem todo dia, sob a ótica desses segurados sempre “se poderia fazer por menos”. Algumas vezes o protegido apenas deseja contar com mais um assessor ou secretário “mais parrudo”, “que imponha respeito”, mas que não lhe dê trabalho e seja completamente submisso.
Não raramente o trabalho de segurança junto a uma autoridade envolve o recebimento de gratificações por parte dos agentes encarregados de protegê-la. Isso faz com que tal serviço seja encarado até como uma premiação e o profissional, que vez por outra se vê ante o dilema de fazer aquilo para o qual foi tecnicamente treinado ou atender a solicitação de seu protegido, acaba optando pela manutenção do seu rendimento suplementar e correndo riscos que deveriam e poderiam ser evitados. A autoridade pode substituir o homem de segurança por qualquer motivo e ele não vai querer contrariá-la para preservar os seus proventos.
Infelizmente a segurança de dignitários e de órgãos públicos no Brasil quase nunca é objeto de real preocupação; porém, quando algo de ruim acontece, obrigatoriamente se vai buscar culpados entre os mesmos profissionais cujos alertas não costumam ser ouvidos e cujas repetidas solicitações cautelares também não foram atendidas, sempre em razão do descaso ou da preponderância da vontade e dos argumentos da autoridade protegida. Qualquer um que atue nessa área há tempos já ouviu coisas como “isso é coisa que jamais vai acontecer aqui”, “isso é coisa que não acontece no Brasil”, “você está vendo fantasmas”...

Alguém já disse que aquilo que esperamos que aconteça pode realmente levar um tempo enorme e contrariando nossas expectativas jamais ocorrer. Por outro lado, aquilo que não esperamos acaba acontecendo sempre de forma surpreendente, tremendamente constrangedora, colocando a nu toda a fragilidade de nossos esquemas de proteção, aquilo que preferiríamos não ver ou mesmo esconder. É normal que autoridades solicitem tanta descrição aos seguranças que acabem mantendo-os afastados demais...
No Brasil, infelizmente ainda nos falta a tradição de pensar em segurança de forma verdadeiramente séria; mas a responsabilidade por tudo que ocorrer - principalmente o que acontecer de errado - sempre será daqueles responsáveis pela segurança. Os tempos estão mudando, e mudando para pior. A criminalidade não conhece freios. Nessa conjuntura, os encarregados de proporcionar proteção às autoridades devem estar conscientes de que não terão pela frente uma tarefa fácil; e os dignitários que eles protegem, sabedores de que, a qualquer momento, seus agentes de segurança poderão ser exigidos a fazer jus aos seus salários da maneira mais arriscada. Os riscos envolvidos não nos permitem negligência ou improvisação; prevenir é sempre mais seguro. Na dúvida é melhor apostar em profissionais bem treinados, confiar no seu discernimento e seguir os conselhos daqueles cujo único objetivo é evitar que o perigo aconteça.

VINICIUS DOMINGUES CAVALCANTE, CPP, - o autor é Consultor de Segurança certificado pela American Society for Industrial Security e especialista em segurança pessoal de dignitários.
Contato : vdcsecurity@hotmail.com